terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Citações

Eu quero conhecer mais! Você rouba minhas palavras e minha respiração: juro que estou com falta de ar, a bombinha de asma está na bolsa, já vou pegá-la. Não seja tão dura assim comigo; eu não sei amar. Pare de tirar minhas palavras. Meu silêncio é meu maior ato. Adoro seu jeito sincero, até na despedida seu trejeito é sexy. Não acaba mais comigo, mais do que já estou acabada. Do meu lado eu só quero chorar em prol da covardia. Estou pisando em um campo minado. Sempre pode mudar. Queria te ver uma última vez.

Medo da noite

Estou lutando para conseguir dormir. Lutando nesta cama, nesta noite, tentando arranjar espaço entre as cobertas e as tralhas. Tentei também arranjar espaço para escrever na minha agenda, mas entre os rabiscos de promessas não há espaços em branco. Tentei telefonar para gente de longe, longo tempo que não os vejo, e as linhas que existem entre os pensamentos de cada um estavam ocupadas. Quase consegui tomar um banho, se a água da minha casa não estivesse suja de negatividade. Não lavei as mãos, nem o rosto e nem os dentes.
Ainda luto para adormecer, mas a escuridão está tentando me amedrontar, dentre tantas ideias, tantas poesias, tanta luz que o Sol nos traz de dia, sinto os medos se mancharem de vermelho, aos poucos. Ao longo da noite.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Sofia e a insônia - 2

Pereço sem meus vícios. Ou fortaleço?

Sonho

É o pensamento duplicado. Acordada eu tenho uma crença, adormecida é outra. Eu sonho. Sonho com perseguição, com magia, com incredulidade, com impossibilidades. A garota me seguia, dormia nos cantos, perto de mim. Onde quer que eu estivesse, ela estava ao lado, adormecida como eu estava na hora, porém sem saber. E eu ia atrás, e ela se zangava. Eu ia atrás, e ela me amava ao contrário. Depois, tínhamos nossa vida. Nossa vida ao Sol. Como é capaz um coração trair a si mesmo?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sêneca

Por isso, enquanto meus olhares não se afastarem do espetáculo que nunca os farta; enquanto me for permitido olhar o Sol e a Lua, fixar os outros planetas, deles observar o nascimento e o ocaso e as distâncias, e indagar as causas que tornam seu curso mais veloz e mais lento, contemplar durante a noite tantas estrelas brilhantes, uma imóvel, outra que se move em curto espaço mas sempre sobre seu caminho, e algumas que aparecem de repente, algumas que espiram centelhas, como se caíssem voando um grande espaço; enquanto estiver com todas essas coisas e me confundir, tanto quanto é permitido ao homem, com as coisas celestes; enquanto tiver sempre alta a alma, inclinada por sua natureza à contemplação dos astros a ela semelhantes - que importa que solo eu pise?


Do livro: Consolação a minha mãe Hélvia (Ad Helviam matrem de consolatione)

Anderson Aníbal - 2

Peixe vivo

Meu coração é um paralelepípedo de sessenta e quatro quilos. Meu coração é um limão carnudo e cheio de suco. Meu coração é uma flecha. Meu coração é um poço. Sem água nenhuma. Meu coração é uma terra batida, rachada, desacreditada por qualquer lavrador. Meu coração tem sede. Meu coração é um desabrigado. Meu coração é um remédio muito forte, para dormir. Meu coração é um veneno. Meu coração é um cachorro que arde em feridas. E late rouco. Meu coração é roxo. Meu coração é um soco no olho. Meu coração é um dente de siso que não conseguiu nascer. Gosto de sangue. Beijo na adversidade. Meu coração é um covarde no meio da tempestade de gelo. Meu coração é um raio no meio da praia deserta. Meu coração é um apêndice. Uma fratura exposta. Meu coração é um toca-fitas roubado. Fio desencapado. Dedo enrugado. Ferrugem, maresia, hemorragia. Meu coração é um acidente nuclear. Um atropelamento. Um escorregão. Meu coração é um terrorista amarrado à sua bomba. Manteiga rançosa, fel de galinha. Almeirão amargoso. Meu coração tem azia. Meu coração é sem limites. Casa vazia. Papel de parede. Provisório. Meu coração tem listras verticais. Meu coração é marcado. Meu coração é um homem bruto, com muita força na mão. Aperta demais as torneiras. E os potes. Compotas de doce. Aflição. Meu coração é uma foice. Gelado, gelado, gelado. Um cubo. Meu coração é um afinador de instrumentos musicais. Meu coração é uma navalha. Lâmina de aço. Toco de cigarro. É uma cobra, um rato. Anda pelos cantos. Meu coração trai. Diz que nunca mais. E volta. E mente. É doce, cara limpa. Espinhoso. Meu coração é triste. E dorme pouco. Eu não tenho solução para o meu coração. Eu não tenho como me livrar dele, como arrancá-lo. Eu corro e fujo e danço e me jogo sobre os carros. Eu me lanço aos beijos e abraços. Eu me deito, eu me levanto. Eu bebo um pouco mais de vinho. E como, como, como. Eu saio dizendo o que não devo. Eu me arrependo. E me açoito. Eu me desculpo. E me compreendo: meu coração é um peixe vivo, saltando, querendo encontrar o mar.


Do livro: Alguns leões falam

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sofia e a insônia

Sofia não gostava de tomar banho. Também não lhe apetecia estar suja. A gota de suor que descia da testa percorria seu rosto, grudava em seu pescoço, e lhe dava a sensação de umidade. Uma umidade desagradável, suja. Esta é a palavra que Sofia não gostava quando lhe era referido a seu corpo: sujo. Porém, o indesejado é o ritual para o banho. Tirar a roupa e se deparar com seu corpo. Sujo. Suado. Sofia sabia o que esses fatores causavam. E, religiosamente, tinha que seguir seu próprio ritual. Mecanicamente. Inconscientemente. Fervorosamente. Compulsivamente. Os dentes se apertavam, sentia a tensão, a força. Prestes a quebrar um dente caso se perdesse a razão - desmaio. A pele, úmida, escorregadia, deixava seus vestígios embaixo das unhas de Sofia, agora pretas nas pontas. Observava as mãos, os dedos, as unhas, o canto das unhas. Era tudo tão desorganizado e feio, e sujo, como todo seu corpo, todo seu quarto, toda iluminação que lhe permitia enxergar bem sua pele, toda sua mente, e toda sua vida. Em vão tentava limpar as unhas, porque recomeçava o ritual em outro canto do corpo. Se seu objetivo, um dia, fora arrancar a pele fora de tanto desgastá-la, não estava tão longe assim do objetivo. Por ora contentava-se, Sofia, de marcá-la. Um dia depois era vermelhidão. No segundo após, uma casca. No terceiro, a casca estava quase saindo. No quarto, conseguia arrancá-la. No seguinte, tudo novamente. Até completar o corpo inteiro. Sofia sabia gozar pelo corpo inteiro. Assim como sabia destruí-lo por inteiro. Numa dessas, Sofia desconfiava ser autodestrutiva. Se boicotava para lamentar o próprio boicote. Para se punir por ter se boicotado. Para se refugiar, também, dos boicotes externos. Dos seus boicotes a outras pessoas. Mas, apenas desconfiava, enquanto, após o banho, algumas horas depois de ter começado a tirar a roupa, estava sentada em sua cama, ainda nua, ainda úmida, mas desta vez limpa, arrancando feito um animal selvagem a pele do canto de sua unha, com os dentes, até sentir arder a carne viva em contato com o ar, e o sangue se espalhar pela fina cutícula.