quinta-feira, 24 de abril de 2014

Carlos Drummond de Andrade

Não passou

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.



As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Presentes

O presente nos é dado de presente,
então,
se imagine em um presépio onde você concebeu a si mesma
e neste presépio você é a única pessoa que
preza pela sua própria presença,
porque
você é sua própria presa,
presidiária em um presente chamado presépio,
em um presépio chamado presente,
tão preciso quanto a prepotência.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Balcão

Todos saem ao balcão neste início de noite. O céu está lindo, o dia não está nublado, vale a pena. Vale a pena sair de dentro da sala ou do quarto e ver o movimento da rua da frente, até os vizinhos que sairam ao balcão. Me sentei à metade, entre a porta e o lado de fora. Cansei de estar muito dentro ou muito fora, cansei de escrever à beira do precipício que é um edifício.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Persistência, o curta


No lugar

Olvidada en algún rincón de la memoria,
aguardo por el sueño para
acordarme de mi propia
existencia.
Y si acaso no me acuerdo
de mi sueño:
sigo dormi
da o des
pierta;
en el no lugar de la memoria.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Lope de Vega

Ir y quedarse, y con quedar partirse,
partir sin alma, y ir con alma ajena,
oír la dulce voz de una sirena
y no poder del árbol desasirse;

arder como la vela y consumirse,

haciendo torres sobre tierna arena;
caer de un cielo, y ser demonio en pena,
y de serlo jamás arrepentirse;

hablar entre las mudas soledades,

pedir prestada sobre fe paciencia,
y lo que es temporal llamar eterno;

creer sospechas y negar verdades,

es lo que llaman en el mundo ausencia,
fuego en el alma, y en la vida infierno.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Três pontos finais

Sobre a brevidade, me releio
como efêmera, e sobre
vibrações, me sinto.

Sobre transmissões, me reconecto
como uma epifania, e sobre
fractais, me encontro.

Sobre o despertar, me alerto
como fragmentária, e sobre
lembranças, me adentro.