segunda-feira, 24 de março de 2014

Presentes

O presente nos é dado de presente,
então,
se imagine em um presépio onde você concebeu a si mesma
e neste presépio você é a única pessoa que
preza pela sua própria presença,
porque
você é sua própria presa,
presidiária em um presente chamado presépio,
em um presépio chamado presente,
tão preciso quanto a prepotência.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Balcão

Todos saem ao balcão neste início de noite. O céu está lindo, o dia não está nublado, vale a pena. Vale a pena sair de dentro da sala ou do quarto e ver o movimento da rua da frente, até os vizinhos que sairam ao balcão. Me sentei à metade, entre a porta e o lado de fora. Cansei de estar muito dentro ou muito fora, cansei de escrever à beira do precipício que é um edifício.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Persistência, o curta


No lugar

Olvidada en algún rincón de la memoria,
aguardo por el sueño para
acordarme de mi propia
existencia.
Y si acaso no me acuerdo
de mi sueño:
sigo dormi
da o des
pierta;
en el no lugar de la memoria.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Lope de Vega

Ir y quedarse, y con quedar partirse,
partir sin alma, y ir con alma ajena,
oír la dulce voz de una sirena
y no poder del árbol desasirse;

arder como la vela y consumirse,

haciendo torres sobre tierna arena;
caer de un cielo, y ser demonio en pena,
y de serlo jamás arrepentirse;

hablar entre las mudas soledades,

pedir prestada sobre fe paciencia,
y lo que es temporal llamar eterno;

creer sospechas y negar verdades,

es lo que llaman en el mundo ausencia,
fuego en el alma, y en la vida infierno.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Três pontos finais

Sobre a brevidade, me releio
como efêmera, e sobre
vibrações, me sinto.

Sobre transmissões, me reconecto
como uma epifania, e sobre
fractais, me encontro.

Sobre o despertar, me alerto
como fragmentária, e sobre
lembranças, me adentro.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Sobre mundos

Sou a fumaça do meu cigarro, e fui engolida por mim mesma. Tossi, tossi e tossi. Mas a garganta ainda arranha. Estou dentro de mim de muitas maneiras possíveis. Não sou apenas a fumaça, também sou a comida, as roupas, e principalmente minhas palavras. Não necessariamente as faladas, porque as ideias ecoam. No auge do breu da madrugada, em um mundo de frases, textos, narrativas e poesias, existem palavras ecoando. É um mundo infinito, porque são incontáveis as palavras desse mundo, a cada parte se falam palavras diferentes, mas as que marcam, ecoam nesse mundo. E aí se pode visualizar o mundo: se resume a um quarto, ao lado do quarto dos pensamentos e das ideias. Por uma porta, ou qualquer fresta que se abra, as palavras ecoam e filosofam no outro quarto. E continuam a ecoar, a existir com sentido maior, com significância. Em frente a esse quarto, está o mundo dos sentimentos. Este já é mais peculiar. É como uma visão de ver o mundo, mas materializado é apenas a natureza. O mundo dos sentimentos exteriorizado são como membranas que nos envolve, e se sente, porque se é uma visão, se vê - se vê com o coração. Coexiste com o mundo das sensações, e esse é o mundo mais aventureiro, porque, como as palavras, existem incontáveis sensações no mundo. Existem incontáveis pessoas do mundo. Logo existem inimagináveis mundos no mundo. Mundos e mundos dentro de uma mente, um universo inteiro de mundos dentro de uma singular pessoa. O que vem de mim é um mundo completamente diferente de qualquer outro, como a minha fumaça, por exemplo. É parte dos ares que respiro, e sai de mim um mundo distinto de ares expelidos.
Uma pessoa com um humor possui um universo de mundos, então cada pessoa tem cada universo de acordo com cada humor, e humores, durante a vida, se diferenciam. O momento é outro, as circunstâncias. Humores são únicos, a cada momento, tudo é único. Uma ideia é única, o que se repete são os lugares comuns da vida. Assim, cada pessoa tem infinitos universos. E as interações entre gente, bichos, natureza, momentos e infindáveis coisas são trocas incríveis de energias que regem os nossos universos. Com tantos universos em um mesmo mundo, algo há de existir entre tantas presenças que faça, além das leis da física, o mundo girar. Ou existir. E existe: são energias que manifestamos e recebemos, são as leis da gravidade e do eletromagnetismo. Energias próprias e alheias, em contínua função.
O que torna o mundo em que todos compartilhamos o "perpétuo assombro" é a singularidade de cada quarto, cada mundo, cada universo, cada complexo de universo, cada interação. A incrível capacidade de se maravilhar.