segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Saudade

Recorrer à nostalgia não é uma agradável maneira de se passar uma noite, ao som de um violão. A chuva está em segundo plano... Sempre esteve.

O amor não é nenhuma grande verdade, quando se trata de nós duas. O que se passou, então, com tão intenso sentimento, duradouro, que marcou uma dor chamada distância, e um coração chamado comunicação? Cantorias não se resolvem mais, a felicidade jamais foi tão fulgaz, a alegria não foi mais tão recorrente aos meus sorrisos. Sim, eu me alegrei, e muito, com a vida e seus rios, com sua vida.

O que seria, então, essa agudez que corta o peito? Se tudo já se foi, não haveria motivos. Nunca acreditei que seria real, mesmo após os sonhos terem cessado. Eu pedi, roguei, implorei. Não tem reciprocidade nesta minha saudade.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Mário Faustino

O mundo que venci deu-me um amor

(...)
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
(...).

A casa de espelhos

Afogou-se na casa de espelhos, obrigado pela madrugada.
Reservou-se na casa de espelhos, e calou-se.
Aproximou-se.

As paredes eram espelhos, o teto era espelho, o chão era espelho,
o mundo era espelho; a casa era espelho, de espelhos.

À sua frente, um corpo.
Em sua posição, outro corpo.
Por todos os cantos: corpos, e mais corpos, e mais corpos...
Debaixo de seus pés, a profundidade de um clarão
(o mais belo e vívido, epifânico, sob olhos secos e compulsivos).
Acima de sua cabeça, a altura do divino.

Nunca será seu reflexo,
a passagem de um futuro.
Todos esses espelhos eram seu pretérito,
endividados,
enlouquecidos e esquecidos em um presente,
no qual, neste momento,
fundiu-se ao explendor de mãos críticas.

Imagens vermelhas apavoram,
porém aliviam.

Não houve espelho que tivesse passado desapercebido,
pois na casa de espelhos, o espelho é o inimigo,
o diabo,
vulto perdido que o corrompe.

Na casa de espelhos, o corpo é mero produto do prazer,
refletido em todos os lados,
a todo o tempo,
fracionado em detalhes.

Não se pensa na casa de espelhos.
Não se ouve,
não se diz.
Faz-se.

Rouquidão

Quase não se diz.
A voz falha.
As frases se misturam,
as palavras se confundem.
Os ruídos são rasos;
os rumores são ralos;
os rugidos são rasgados.

Quase não se ouve.
A voz é rouca.
Os sons são fulgazes;
os lábios são vorazes.

As ideias estão rentes à sede.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O fim

Eu não deveria ter-lhe dito.

Rapaz de tão série expressão, seu sorriso calentou a paixão de uma menina.
Coração, este, tão fulgaz quanto a pressa de amar.
Paixã, esta, tão intensa quanto o mistério de saber como seus lábios pronunciariam o meu nome...
E você o fez.

Quisera eu, agora, que não soubesse de mim;
quisera eu...

O sentimento somente será puro e real enquanto secreto.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Coração

Meu sorriso tem o nome de um rapaz
de tão bela voz, e uma calma que me inquieta.
Sua presença me acelera;
seu toque me tenta
aos tropeços,
sem tato,
no entato,
tal toque
é o tambor
tremoroso,
tremendo,
estrondoso;
e termino
o tentar,
transformo-o
em tornar,
encontrar
um jeito
de tê-lo
tão perto,
tão certo,
incorreto,
imperfeito,
este feito,
este tom,
meio tom,
para mim.

Rapaz são, de tão série expressão; sua ausência me acalmou.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O silêncio

Não queria ter de lhe suplicar palavras, meu velho amor. Seu silêncio me engana; sei que esta é a sua expressão. Você me conta sobre seu dia, enquanto eu ouço "Não te chamarei mais de amor. Sejamos amigas"; enquanto eu penso "Chama-me de amor, diga que me ama hoje, diga que sente minha falta"; enquanto você diz que não quer mais estar aqui, que vai dormir, e eu lhe peço, diga que me quer em sua cama, que quer se deitar comigo. Mas não. O silêncio é a sua expressão; seu silêncio não me engana, seu silêncio me diz "Nada tenho a dizer, nem para você".