segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Nostalgia
Recordar a nostalgia são releituras das lembranças de anos ou de ontem. Nostalgia é um sentimento só, assim como o ser é um só e a percepção é uma só. Não existe comparação sem o elemento comparativo, assim como não existe a comparação de elementos não diacrônicos. A questão é a sincronia de momentos que torna uma comparação em metáfora. A questão da nostalgia é a sutileza de retomar sentenças antigas e fazê-las clássicas. O amor de outrora não é mais o de hoje. A cumplicidade de outro ano não é mais cúmplice de uma amizade. É a sutileza de fazer uma anáfora seguir sendo simples e intensa. A simplicidade de fazer uma aliteração implícita. É o silêncio do externo que ecoa feito consoantes numa cabeça veloz.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Aldous Huxley
A verdade é a libertação; mas, por outro lado, não é prudente acordar o cão que dorme e muito menos provocar o que não dorme.Convém ter em mente que as guerras mais implacáveis não são as que se travam em torno das coisas; e sim as que se travam em torno das tolices que os idealistas eloquentes disseram sobre as coisas - em outras palavras, as guerras religiosas. O que é uma limonada? Algo que se fabrica com limões. E o que é uma cruzada? Algo que se fabrica com cruzes - um processo de violência gratuita originada numa obsessão por símbolos mal definidos. "Que ledes, meu senhor?" "Palavras, palavras, palavras". E o que faz uma palavra? Resposta: cadáveres, milhões de cadáveres. E a moral disto é: não abra o bico; ou, se não puder deixar de abri-lo, nunca leve muito a sério o que venha a sair dele.
Katy mantinha os nossos bicos firmemente trancados. Possuía a sabedoria instintiva que faz tabu dos insultos éticos (e a fortiori das algaravias científicas), enquanto tacitamente aceita como fatos consumados os atos diurnos e noturnos a que eles se referem. Em silêncio, um ato é um ato é um ato. Verbalizado e discutido, ele se transforma num problema moral, mum casus belii, numa fonte de neuroses.
Do livro: O Gênio e a Deusa
Katy mantinha os nossos bicos firmemente trancados. Possuía a sabedoria instintiva que faz tabu dos insultos éticos (e a fortiori das algaravias científicas), enquanto tacitamente aceita como fatos consumados os atos diurnos e noturnos a que eles se referem. Em silêncio, um ato é um ato é um ato. Verbalizado e discutido, ele se transforma num problema moral, mum casus belii, numa fonte de neuroses.
Do livro: O Gênio e a Deusa
terça-feira, 17 de julho de 2012
Genius
Estou no meu refúgio, o refúgio das obsessões. A beleza é dispensável quando se é capaz de sentir por debaixo da pele. Com minhas obsessões, estou chegando lá: debaixo da pele. Neste lugar, sou espaçosa, meu corpo são meus pensamentos, e cada reflexão é um pico de prazer. Não sou organizada, mas sou calma, porém ansiosa - por fora.
Como é possível se entediar consigo mesmo, se uma pessoa é genial em seus ossos. A questão está na pele, nem toda pessoa é genial na pele. Na pele, eu sou a linha tênue entre minha vaidade e minha genialidade.
Como é possível se entediar consigo mesmo, se uma pessoa é genial em seus ossos. A questão está na pele, nem toda pessoa é genial na pele. Na pele, eu sou a linha tênue entre minha vaidade e minha genialidade.
domingo, 13 de maio de 2012
Crime
Cometi um crime horrível. Me rendi ao Amor, o louco e ganancioso. Não sei onde esconder meus sonhos e meus Sonhos. Fui testemunha de um crime terrível, e agora não sei o que fazer com a minha mente. Onde ela está?
Tentei buscar minha razão no beco onde meu amor foi sequestrado - escuro, sujo, vazio. Só se ouve o eco da minha voz. O eco do meu sentimento; o eco do dia em que o Amor me raptou.
Esse crime me consome. Não sei como durmo todos as noites. Durmo mal, mas durmo. O Amor me envolveu, me conquistou com todo seu charme e me fez descobrir o amor. Um homem me fez mulher, e uma mulher não é mais uma menina. O Amor me tirou o que me restava de puro, e me contaminou com seu veneno - chamam, pelas ruas, de tesão. Me deu uma arma, e me disse: "ou ele ou eu; ou ela ou eu". E das atitudes fiz a arma, e das lágrimas, o sangue do assassinado. Matei o Sonho. Matei dois sonhos. Feri o Amor dos meus sonhos, o amor do Sonho.
E agora vivo assim, covarde de amar além do Amor. Estou a ponto de me entregar ao meu sequestrador, de lhe contar aonde pode estar o meu coração, pelas ruas da cidade; e quiçá um dia eu queira sair dessa.
Tentei buscar minha razão no beco onde meu amor foi sequestrado - escuro, sujo, vazio. Só se ouve o eco da minha voz. O eco do meu sentimento; o eco do dia em que o Amor me raptou.
Esse crime me consome. Não sei como durmo todos as noites. Durmo mal, mas durmo. O Amor me envolveu, me conquistou com todo seu charme e me fez descobrir o amor. Um homem me fez mulher, e uma mulher não é mais uma menina. O Amor me tirou o que me restava de puro, e me contaminou com seu veneno - chamam, pelas ruas, de tesão. Me deu uma arma, e me disse: "ou ele ou eu; ou ela ou eu". E das atitudes fiz a arma, e das lágrimas, o sangue do assassinado. Matei o Sonho. Matei dois sonhos. Feri o Amor dos meus sonhos, o amor do Sonho.
E agora vivo assim, covarde de amar além do Amor. Estou a ponto de me entregar ao meu sequestrador, de lhe contar aonde pode estar o meu coração, pelas ruas da cidade; e quiçá um dia eu queira sair dessa.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Fumaça
O calor, o coração pulsante e a mão trêmula. Seria paixão? A respiração árdua que pesa sobre ombros, olhos e dedos. Já não sei em qual letra concentrar a tinta. Mas seria? A paixão, que me deixou devagar assim, difícil de falar, de mover?
Ou seria a paixão a fumaça? Está lá, acendendo; a chama, vem o impulso, o surto, um surto mais forte, enfraquecendo, se extinguindo... E a fumaça é plena, agora? Seria a paixão desse jeito?
E...? Passou? Apagou?
Ou seria a paixão a fumaça? Está lá, acendendo; a chama, vem o impulso, o surto, um surto mais forte, enfraquecendo, se extinguindo... E a fumaça é plena, agora? Seria a paixão desse jeito?
E...? Passou? Apagou?
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Perdição
Perdi a palavra no meu quarto. Perdi as letras nas cinzas do meu cigarro. Perdi o trecho nas escadarias do meu prédio. Perdi o livro na minha caminhada matinal. Perdi o título no meu sono. Perdi a dedicatória no meu anel.
Perdi a história na noite da minha saudade.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Camões
III
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém por que assim ando
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.
Do livro: Sonetos para amar o amor
Assinar:
Postagens (Atom)