Cometi um crime horrível. Me rendi ao Amor, o louco e ganancioso. Não sei onde esconder meus sonhos e meus Sonhos. Fui testemunha de um crime terrível, e agora não sei o que fazer com a minha mente. Onde ela está?
Tentei buscar minha razão no beco onde meu amor foi sequestrado - escuro, sujo, vazio. Só se ouve o eco da minha voz. O eco do meu sentimento; o eco do dia em que o Amor me raptou.
Esse crime me consome. Não sei como durmo todos as noites. Durmo mal, mas durmo. O Amor me envolveu, me conquistou com todo seu charme e me fez descobrir o amor. Um homem me fez mulher, e uma mulher não é mais uma menina. O Amor me tirou o que me restava de puro, e me contaminou com seu veneno - chamam, pelas ruas, de tesão. Me deu uma arma, e me disse: "ou ele ou eu; ou ela ou eu". E das atitudes fiz a arma, e das lágrimas, o sangue do assassinado. Matei o Sonho. Matei dois sonhos. Feri o Amor dos meus sonhos, o amor do Sonho.
E agora vivo assim, covarde de amar além do Amor. Estou a ponto de me entregar ao meu sequestrador, de lhe contar aonde pode estar o meu coração, pelas ruas da cidade; e quiçá um dia eu queira sair dessa.
domingo, 13 de maio de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
Fumaça
O calor, o coração pulsante e a mão trêmula. Seria paixão? A respiração árdua que pesa sobre ombros, olhos e dedos. Já não sei em qual letra concentrar a tinta. Mas seria? A paixão, que me deixou devagar assim, difícil de falar, de mover?
Ou seria a paixão a fumaça? Está lá, acendendo; a chama, vem o impulso, o surto, um surto mais forte, enfraquecendo, se extinguindo... E a fumaça é plena, agora? Seria a paixão desse jeito?
E...? Passou? Apagou?
Ou seria a paixão a fumaça? Está lá, acendendo; a chama, vem o impulso, o surto, um surto mais forte, enfraquecendo, se extinguindo... E a fumaça é plena, agora? Seria a paixão desse jeito?
E...? Passou? Apagou?
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Perdição
Perdi a palavra no meu quarto. Perdi as letras nas cinzas do meu cigarro. Perdi o trecho nas escadarias do meu prédio. Perdi o livro na minha caminhada matinal. Perdi o título no meu sono. Perdi a dedicatória no meu anel.
Perdi a história na noite da minha saudade.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Camões
III
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.
Se me pergunta alguém por que assim ando
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.
Do livro: Sonetos para amar o amor
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Rebelião
Eu me rebelo, me rebelo, sim. Criei uma rebelião: contra a beleza. É bélica, é bela, é guerra.
É uma revolução. Vou mudar os meus sentimentos, que já não suportam mais a própria existência. Desgaste define. Agora a rebelião é outra: contra o amor. Contra as letras, e ao meu coração, destroçado por palavras de vão significado, que outrora eram de ouro. Como Midas, o Rei Midas. Eram ouro. As palavras proferidas e arranhadas eram de ouro, mas apenas para a beleza que os olhos percebem de um brilho intenso e comum. Simples. Sem fundamento, sem teoria, ocas. Palavras ocas, que se ouve o eco de longe. Nem o surto da minha voz atravessa esse silêncio. Palavras e imagem, imaginação e real. Nem o surto da minha expressão atravessa esse silêncio (ou sentimentos alheios).
Qualquer baque que eu levar não vai ser suficiente para me fazer desistir dessa rebelião.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Vida clássica
Juntarei moedas de cinco centavos, de semana em semana - para ter tempo de lhe esperar -, em um pote bem grande de cozinha. Comprarei uma vitrola e alguns clássicos do rock, para ser mais agressiva.
Enquanto isso, eu vivo a paz, com meus discos de música clássica e meus cigarros fortes. De um em um centavo, de ano em ano, farei cópias das minhas chaves. Quando lhe entregar, que as tenha por definitivo, e que me entenda como uma pessoa séria. Jogarei fora o que possuo de clássicas para cultivar um amor moderno.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Bellitiae (Sobre a beleza)
É tudo sobre o que se sente. Se for para pensar, acenda um cigarro. Espaireça a mente.
Em pleno céu negro e constante, quatro horas são marcadas no relógio, e assim como não há pessoas na rua, não existem estrelas acima da minha cabeça. Também não se vendem cigarros. Preciso de algo que me mantenha aberta para pensar.
E se for tudo sobre o que a pele sente?
... Tenho certos costumes provindos do nervosismo do devanear em excesso. A beleza da pele está no sangue, na vermelhidão ardente, nas marcas da leviana violência. Unhas são garras, alvos, o corpo. Marcas são cicatrizes, e cicatrizes são lembranças.
Acredito que tudo seja sobre a beleza.
Aquela que eu, somente eu, vejo.
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