terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ao mestre

Mestre, minhas palavras. Quero dizer que lhe orgulho, agora. Dificuldades sempre existem no caminho, e eu aprendi que eu mesma construo o meu. Quase comecei a acreditar em algum Deus; os sinais já eram uma alarde, mas eu tenho meu próprio andar, e resolvi que somos pessoas diferentes. Pensei querer seguir suas pegadas, porém encontrei o caminho certo, dentro de mim.
Eu lhe procurei tanto, mestre, que em anos eu pedi um socorro que nunca veio a mim. Mas segui em frente, quis ser firme, e gravei em mim sua lembrança mais querida, para me lembrar da veracidade que suas palavras tiveram em mim, e da persistência que essas palavras devem ter em mim. E tem, mestre, porque eu consegui.
Preciso de mais. Dizer que do passado só se têm os rastros, as pegadas, que das pegadas feitas na areia, o mar levou, e que não adianta olhar para algo que já se esvaiu. O tempo não volta, mas o tempo renova os sonhos. Houve e haverão tempos em que eu só quero convencer ao outros que no me llames de pesada, Pepa, que estoy muy sensible. Quero chegar, mestre, chegar até você. À mesma paz de conhecimento.


Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.


Citações

Eu quero conhecer mais! Você rouba minhas palavras e minha respiração: juro que estou com falta de ar, a bombinha de asma está na bolsa, já vou pegá-la. Não seja tão dura assim comigo; eu não sei amar. Pare de tirar minhas palavras. Meu silêncio é meu maior ato. Adoro seu jeito sincero, até na despedida seu trejeito é sexy. Não acaba mais comigo, mais do que já estou acabada. Do meu lado eu só quero chorar em prol da covardia. Estou pisando em um campo minado. Sempre pode mudar. Queria te ver uma última vez.

Medo da noite

Estou lutando para conseguir dormir. Lutando nesta cama, nesta noite, tentando arranjar espaço entre as cobertas e as tralhas. Tentei também arranjar espaço para escrever na minha agenda, mas entre os rabiscos de promessas não há espaços em branco. Tentei telefonar para gente de longe, longo tempo que não os vejo, e as linhas que existem entre os pensamentos de cada um estavam ocupadas. Quase consegui tomar um banho, se a água da minha casa não estivesse suja de negatividade. Não lavei as mãos, nem o rosto e nem os dentes.
Ainda luto para adormecer, mas a escuridão está tentando me amedrontar, dentre tantas ideias, tantas poesias, tanta luz que o Sol nos traz de dia, sinto os medos se mancharem de vermelho, aos poucos. Ao longo da noite.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Sofia e a insônia - 2

Pereço sem meus vícios. Ou fortaleço?

Sonho

É o pensamento duplicado. Acordada eu tenho uma crença, adormecida é outra. Eu sonho. Sonho com perseguição, com magia, com incredulidade, com impossibilidades. A garota me seguia, dormia nos cantos, perto de mim. Onde quer que eu estivesse, ela estava ao lado, adormecida como eu estava na hora, porém sem saber. E eu ia atrás, e ela se zangava. Eu ia atrás, e ela me amava ao contrário. Depois, tínhamos nossa vida. Nossa vida ao Sol. Como é capaz um coração trair a si mesmo?

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sêneca

Por isso, enquanto meus olhares não se afastarem do espetáculo que nunca os farta; enquanto me for permitido olhar o Sol e a Lua, fixar os outros planetas, deles observar o nascimento e o ocaso e as distâncias, e indagar as causas que tornam seu curso mais veloz e mais lento, contemplar durante a noite tantas estrelas brilhantes, uma imóvel, outra que se move em curto espaço mas sempre sobre seu caminho, e algumas que aparecem de repente, algumas que espiram centelhas, como se caíssem voando um grande espaço; enquanto estiver com todas essas coisas e me confundir, tanto quanto é permitido ao homem, com as coisas celestes; enquanto tiver sempre alta a alma, inclinada por sua natureza à contemplação dos astros a ela semelhantes - que importa que solo eu pise?


Do livro: Consolação a minha mãe Hélvia (Ad Helviam matrem de consolatione)

Anderson Aníbal - 2

Peixe vivo

Meu coração é um paralelepípedo de sessenta e quatro quilos. Meu coração é um limão carnudo e cheio de suco. Meu coração é uma flecha. Meu coração é um poço. Sem água nenhuma. Meu coração é uma terra batida, rachada, desacreditada por qualquer lavrador. Meu coração tem sede. Meu coração é um desabrigado. Meu coração é um remédio muito forte, para dormir. Meu coração é um veneno. Meu coração é um cachorro que arde em feridas. E late rouco. Meu coração é roxo. Meu coração é um soco no olho. Meu coração é um dente de siso que não conseguiu nascer. Gosto de sangue. Beijo na adversidade. Meu coração é um covarde no meio da tempestade de gelo. Meu coração é um raio no meio da praia deserta. Meu coração é um apêndice. Uma fratura exposta. Meu coração é um toca-fitas roubado. Fio desencapado. Dedo enrugado. Ferrugem, maresia, hemorragia. Meu coração é um acidente nuclear. Um atropelamento. Um escorregão. Meu coração é um terrorista amarrado à sua bomba. Manteiga rançosa, fel de galinha. Almeirão amargoso. Meu coração tem azia. Meu coração é sem limites. Casa vazia. Papel de parede. Provisório. Meu coração tem listras verticais. Meu coração é marcado. Meu coração é um homem bruto, com muita força na mão. Aperta demais as torneiras. E os potes. Compotas de doce. Aflição. Meu coração é uma foice. Gelado, gelado, gelado. Um cubo. Meu coração é um afinador de instrumentos musicais. Meu coração é uma navalha. Lâmina de aço. Toco de cigarro. É uma cobra, um rato. Anda pelos cantos. Meu coração trai. Diz que nunca mais. E volta. E mente. É doce, cara limpa. Espinhoso. Meu coração é triste. E dorme pouco. Eu não tenho solução para o meu coração. Eu não tenho como me livrar dele, como arrancá-lo. Eu corro e fujo e danço e me jogo sobre os carros. Eu me lanço aos beijos e abraços. Eu me deito, eu me levanto. Eu bebo um pouco mais de vinho. E como, como, como. Eu saio dizendo o que não devo. Eu me arrependo. E me açoito. Eu me desculpo. E me compreendo: meu coração é um peixe vivo, saltando, querendo encontrar o mar.


Do livro: Alguns leões falam