sexta-feira, 17 de abril de 2015

Águas não passadas

Pensei ter encontrado
uma camiseta preta velha no fundo do rio, mas era um vulto marinho, fantasma sereia, minha sombra projetada na profundeza.

Achei ter avistado
o outro lado do oceano do alto do meu prédio, mas eu via uma alma andante, intercultural, no fim da rua.

Acreditei ter abafado
todos meus gritos debaixo da cachoeira, mas eu fui ouvida, porém pranto rejeitado.

Cogitei ter descoberto
maneiras de me desafogar das vontades ansiosas, sabedoria, sublimar criação, mas este é só o primeiro passo para além da aceitação.

Suportei ter de aceitar
lidar com a decisão alheia, afogo, engasgo, cuspo, respiro, dor, mas esta é quase a superfície do que é gostar do outro.

Tempo

Tenro tempero
terna tempestade
tempo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Refúgio em meus olhos

Buscou refúgio em meus olhos.
De cinza a cinza eu vi decair
seu olhar às minhas mãos;
e eu não soube amparar seu cigarro tão viciado.

Buscou refúgio em meus olhos.
Do negro ao azul eu vi o dia recompor
suas lágrimas que vieram sutis;
mas eu não tenho guarda-chuva para nós dois.

domingo, 5 de abril de 2015

Esperar

Espero pelas beiradas,
amanhece no horizonte,
o dia se cai, o sol é quente,
acontece no horizonte,
o tempo é astuto, perpétuo assombro.

Espero debaixo de marquises,
pra me esconder do entardecer,
qual pranto ou alegria,
não deixo essa noite cair em mim.

Espero acima das nuvens,
sobrevoando um continente,
é madrugada, pó de estrelas.

Espero singela,
poucas palavras.

sábado, 21 de março de 2015

Está no ar,
vai e voa como brisa boa de primavera.

É vão do vale verde do verão,
onde se esvazia e se esvai o sentimento,
levado pelo vento,
sugado pela terra, se nutre
a terra mãe natureza.
Sorve o líquido quente com vontade
de quem tem sede por valiosidade.
O morno gozo em seu devido lugar,
no vão do vale verde do verão,
evaporado pela brisa da primavera.

Condensado no ar,
no frio vazio do inverno.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Marx e Engels

Tudo o que é sólido e estável se volatiliza, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente obrigados a encarar com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas relações recíprocas.


Do livro: O Manifesto Comunista

terça-feira, 3 de março de 2015

Sorriso

Uma feição para uma não palavra,
para aquilo que não se sabe dizer.
Um sorriso virtual,
um sorriso real,
um sorriso mental
não deixam de ser afeto sentido e passado.
Porque o sorriso também é solitário,
e de tão só, quando requisitado,
se enlaça numa linha tão forte que puxa,
com alegria,
outro sorriso que o acompanhe.