domingo, 29 de agosto de 2010

Estação

Essa noite sonhei de novo com você, meu amor. Eu estava a caminho de suas terras, nos trilhos. Me deliciava com o gélido vento que perpassava pelo trem, de braços cruzados na intenção de me esquentar, além dos grossos casacos que havia me sugerido levar. Entretanto, a paisagem não apetecia à minha curiosidade, no instante em que minha imaginação me entretia um tanto mais. Sabe do que falo, do que sempre falo, do que vivo falando: você.

Ao por o primeiro pé na estação, te vi. Nunca te vi tão real, tão bonita. E minha. Você me viu também. Não sabíamos o que fazer em meio a tanto êxtase; a felicidade saltou das minhas pernas, que foram ao seu encontro; não eu, elas. E você, a alegria irradiava dos seus braços, que nos envolveu em um momento que antes nos era tão... utópico. Então acordei.

Então acordei e me lembrei de que um amor assim não existirá até quando aquele momento nos for real.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Gustavo Adolfo Bécquer

Rima XXI

—¿Qué es poesía?, dices, mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul,
¡Qué es poesía! ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía... eres tú.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O mirante

(A cidade se fundiu com o céu.)

Alto cá cada luz é cada casa, cada carro, cada caminho. Alto cá cada carinho era precavido, cada caso uma enclave, toda a encosta eram canções.

Alto lá cada luz era dos seus olhos, todo o calor era do seu corpo, cada limite era meu, todo o amor era seu. Alto lá cada minuto era nosso.

Alto cá, as lembranças se cansaram; toda a luz se calou, todo o som se abafou. Cada cara era rara, cada encosto era caro; casa sonho era raro, cada palavra era escassa.

Alto lá! A calmaria se calou.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um sonho

Num momento de semi-realidade, eu te vi. Eu te vi e chorei. Com todo o poder que eu tinha, corri. Nada parecia importar mais do que conseguir te abraçar, porém tudo o que envolvi foi meu travesseiro.

E a claridade da manhã me despertou.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O tempo

O tempo é paixão...
Tão fulgaz!
Confunde até os mais belos sentimentos.
Faz da beleza um refúgio para justificativas.
Revive empoeirados e quebrados corações,
e os devolve como os encontrou.
Paixão é momentânea.
Felicidade instantânea.

O tempo é amor.
O próprio.
Trancado em seu espaço.
Se amou intensamente.
Se desejou tanto
que o amor não coube:
escapuliu pelas feridas;
e a porta se abriu.

O tempo é amor.
O meu pelo seu.
A certeza diária das escolhas.
A minha pela sua.
A abdicação que nos fez sorrir.
Por fim, o entendimento
e a conclusão.

O tempo é amor.
O reflexo do fulgaz.
Duradouro.

O mais pálido dos rostos

O mais pálido dos rostos se corou com o toque da minha mão. Repousei-a lá, e quando o sol inundou a face, convidou-me para beijá-la. Ele se foi, e um sorrido criou outro. Voltou, para nos unir.

O verde azulado eternizou-se. Uma troca de olhares, até por um dos mais críticos olhos, quis ser presente por mais tempo. Os risos da descoberta me atormentaram; então pude abraçá-la, enfim.

Até nesse tumulto preto e branco, o sol fez o mais pálido dos rostos avermelhar-se, e duas mãos se entrelaçarem.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O silêncio, o vazio e o resto.

Meus dias são nervosos enquanto as palavras não saem. O silêncio é o meu mal, é o meu bem. A pele quase foge da quietude, que se descola dos pensamentos; contudo, me protege, me salva. Pensar em ti, esse é o meu forte.

Hoje vi em uma moça o seu sorriso, e até os meus dedos se calaram. Estagnados, como quem sonha com veemência. Se toda vez em que adormeço não bastasse para estar com você. Abraço o vazio em vão. Enlaço o vazio, agora são. Amasso o vazio, atiro-o no chão. Pisoteio-o.

Lhe ver feliz, minha maior ambição. Se já não, meu corpo a tomou.