quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Unidade constante

Se tenho saudade, é da inocência. Da ingenuidade de um sentimento forte, denso e intenso, ao mesmo tempo frágil. Não das noites de amor, das manhãs de companheirismo, mas do que brilhava sob as nossas cabeças. E de como compartilhávamos essa luz.

Se sinto falta, é da paz. Não da fulgacidade da paixão. Não da divergência corporal - quase sensual. Da amizade, sim. Das confidências, mas das sensações... Não sabia mais lidar.

Se ainda espero, é a espera de uma constante. Um corpo que me seja constante, junto com um coração que me seja constante. Não aguardo um vazio ou a chegada do frio. Espero um só. Não três, não dois, uma unidade de pessoa - de alma e físico, emotivo e lírico.
Que venha aos poucos, como as gotas de uma chuva: uma por uma. Que venha... Numa próxima estação de chuva.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Caminante 2

E no desespero, caminhante, lembre-se que não existe o caminho; é você que o faz.
As pegadas são seus rastros, andarilho, e mesmo olhando para trás, não verá o caminho mais.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Noite ou vida

Alguém não dormiu bem durante a noite. Teve o sono agitado e sonhos turbulentos. Remexeu-se o tempo todo, e sentia calor... E frio. Calor... E frio. Enrolou-se nas cobertas erradas, e a colcha estava já caída no chão. Se acordou, foi de madrugada, porque assustou com um barulho ou foi erro do relógio biológico mesmo. Se despertou-se, foi na hora errada da manhã - cedo ou tarde demais. E a sonolência não vem quando esses pequenos surtos de realidade acontecem: está deitado em uma cama, olhando para o teto, para o ventilador, para as cortinas ou apenas para a escuridão; para as silhuetas monstruosas que tomam forma durante a noite, dos móveis do quarto. E pensando, divagando sobre a vida, sobre o dia, como se fosse possível flutuar, como se houvesse uma neblina - nada é claro demais, mas tudo é concreto demais. E adormece novamente. Como se a realidade tivesse dado espaço à fumaça da inferência: o que é sincero nesse sono?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sperare

Que um dia eu possa sanar o meu silêncio.

A voz sai e volta - speculum - especula sobre os sentimentos que outrora eram luz, mas agora são esperanças, que vão... Que se vão...

Spero. Spes.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Asas

Agradável seria ter asas, para voar pelo céu em dias claros, acompanhando o movimento das nuvens. Ter a ilusão de alguma consistência e me deitar nas nuvens, para cair em falso. Fingir que são leitos, e confundir sua maciez alva com sonhos de um dia ensolarado.

Excitante seria ter asas, velozes, para protestar contra o mundano e traiçoeiro. Para correr em direção ao solo, como se as asas fossem pés de um corredor, como se o vento que me confronta fosse o corredor do limite da vida. Fazer como se fosse suicídio. Pretender um choque, mas surpreender a poucos metros do chão, e voar, de novo, para o céu.

Gentil seria ter asas, e voar, planar, como um aviãozinho de papel, de acordo com a brisa, maestra, sobrevoando um planalto - terra plana, terra lisa, terra de quem quer ver o céu sem restrição. E calmamente, olhar para baixo, para àqueles que me olham também. Sentir-se ao mesmo tão grande quanto pequeno. Tão igual.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Voar é...

Eu só preciso que você me tranquilize. Sua voz é capaz de fazer levitar a pedra que se apoia nos meus ombros.

Quero lhe ouvir por muito tempo. Faço um desejo para cada milagre de Deus, só para poder lhe escutar um pouco mais. Uma palavra sua, acho, até eu poderia voar. Pense em uma lembrança boa. Já sei a minha. Pensou? E agora, vai vir comigo?

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sonho

E eu acordei.

Abri os meus olhos. Pus os meus pés no chão; e isso foi como uma epifania. Continuei sentada na cama, e foi como um momento de reflexão.
Se um sonho não é capaz de persistir, não há porque continuá-lo sonhando. Se não existe uma continuação, ou na vida, em si, não é um fato que possa ser consumado, se possível, acorde.

É um alerta.

Meus primeiros passos foram os mais difíceis - estavam de luto. Testemunharam a morte de um sonho.