terça-feira, 10 de abril de 2012

Fumaça

O calor, o coração pulsante e a mão trêmula. Seria paixão? A respiração árdua que pesa sobre ombros, olhos e dedos. Já não sei em qual letra concentrar a tinta. Mas seria? A paixão, que me deixou devagar assim, difícil de falar, de mover?
Ou seria a paixão a fumaça? Está lá, acendendo; a chama, vem o impulso, o surto, um surto mais forte, enfraquecendo, se extinguindo... E a fumaça é plena, agora? Seria a paixão desse jeito?
E...? Passou? Apagou?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Perdição

Perdi a palavra no meu quarto. Perdi as letras nas cinzas do meu cigarro. Perdi o trecho nas escadarias do meu prédio. Perdi o livro na minha caminhada matinal. Perdi o título no meu sono. Perdi a dedicatória no meu anel.

Perdi a história na noite da minha saudade.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Camões

III

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém por que assim ando
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.


Do livro: Sonetos para amar o amor

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Rebelião

Eu me rebelo, me rebelo, sim. Criei uma rebelião: contra a beleza. É bélica, é bela, é guerra.
É uma revolução. Vou mudar os meus sentimentos, que já não suportam mais a própria existência. Desgaste define. Agora a rebelião é outra: contra o amor. Contra as letras, e ao meu coração, destroçado por palavras de vão significado, que outrora eram de ouro. Como Midas, o Rei Midas. Eram ouro. As palavras proferidas e arranhadas eram de ouro, mas apenas para a beleza que os olhos percebem de um brilho intenso e comum. Simples. Sem fundamento, sem teoria, ocas. Palavras ocas, que se ouve o eco de longe. Nem o surto da minha voz atravessa esse silêncio. Palavras e imagem, imaginação e real. Nem o surto da minha expressão atravessa esse silêncio (ou sentimentos alheios).

Qualquer baque que eu levar não vai ser suficiente para me fazer desistir dessa rebelião.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vida clássica

Juntarei moedas de cinco centavos, de semana em semana - para ter tempo de lhe esperar -, em um pote bem grande de cozinha. Comprarei uma vitrola e alguns clássicos do rock, para ser mais agressiva.
Enquanto isso, eu vivo a paz, com meus discos de música clássica e meus cigarros fortes. De um em um centavo, de ano em ano, farei cópias das minhas chaves. Quando lhe entregar, que as tenha por definitivo, e que me entenda como uma pessoa séria. Jogarei fora o que possuo de clássicas para cultivar um amor moderno.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bellitiae (Sobre a beleza)

É tudo sobre o que se sente. Se for para pensar, acenda um cigarro. Espaireça a mente.
Em pleno céu negro e constante, quatro horas são marcadas no relógio, e assim como não há pessoas na rua, não existem estrelas acima da minha cabeça. Também não se vendem cigarros. Preciso de algo que me mantenha aberta para pensar.

E se for tudo sobre o que a pele sente?
... Tenho certos costumes provindos do nervosismo do devanear em excesso. A beleza da pele está no sangue, na vermelhidão ardente, nas marcas da leviana violência. Unhas são garras, alvos, o corpo. Marcas são cicatrizes, e cicatrizes são lembranças.

Acredito que tudo seja sobre a beleza.
Aquela que eu, somente eu, vejo.

domingo, 27 de novembro de 2011

A via

Se o caminho é desigual, é que um lado da vida está sobreposto ao outro.
Se o caminho é atemporal, é que uma lembrança da vida está mais exposta que as demais.
Se o caminho é vital, é que uma parte do coração vive mais.
Se o caminho está pesado, é que falta seus cigarros na minha bolsa. Eu caminho vazia, bolsa vazia, mente vazia. A vestimenta sou eu. Os sapatos são meus pensamentos. São as ideias que percorrem pela via chamada vida.

Se seus sapatos carregam cigarros, sua mente está em fogo, e as ideias são fumaça.
Seus cigarros guardados, a mente descansa.
Seus cigarros na minha bolsa e seus sapatos são novos.
Seus cigarros comigo, e seu coração não é meu.
Seus cigarros comigo, estou eufórica.

Eu sou eufórica longe da paz.
Paz é equilíbrio.
Se o caminho é desigual, o caminho está em desequilíbrio.
Se o caminho é desigual, não vejo você para equilibrá-lo.
Paz é equilíbrio.
Paz é você.
Eu sou eufórica longe da paz.
E meus cigarros se acabaram nessa via chamada vida.