sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sobre o que mudanças são capazes

Do amor que antes era certo, com mudanças se tornou quase inimigo, mas também introspectivo.
A vida se tornou mais sozinha, mais apenas a cidade e eu. Eu, sem graça por ser nova, fiquei um pouco sem graça por ser jovem. Encaro a cidade de baixo e não sei muito bem o que dizer. O que posso fazer agora? E daí tentar se dar um pouco para esta cidade, e se dar além do ascendente, ser o que é, pensar em voz alta, eu quero ser assim, quero isto, quero ir a praia, quero ser boêmia e sê-la só. Quero conquistar algumas coisas e então estou sozinha, quero repetir umas palavras e insistir e persistir até onde der, porque não há o que perder se estou só.

Cenas

A primeira cena começa assim: abro a porta do meu quarto e te digo: - É assim que está a minha vida; e você pode me responder com algo óbvio como "Bagunçada...". Na segunda cena eu abro algumas portas da minha mente e não preciso dizer nada, você vai sentir. Nas próximas, eu, talvez, apresente outras portas, frestas, janelas, buracos na parede, até prisões da cabeça, e pergunto se ainda quer continuar com isso. Você me responde que sim, e então outros orifícios se abrem. A cena final se aproxima. Eu também conheço você, e você me conhece cada vez mais, e eu também. As últimas cenas são os motivos pelos quais nós estivemos encantadas o tempo todo, nos mavarilhando com o assombroso. Assim, se possível, cativaremos o espectador uma lágrima o surpreende: a cena final algo terrível acontece e todas as portas, janelas, buracos, orifícios em geral, são fechados.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Insônia

Comecei a desgostar do nascer do sol. De tantos que já vi, nessa virada do preto para o azul para cores tão claras, são novos inícios. Mas novos inícios marcados de quando acordamos para um novo dia. E se eu não dormi, e meu início não foi marcado?

domingo, 20 de outubro de 2013

Corte

Não penso em descobrir como é cortar a pele humana, escolher uma faca, afiá-la e enfiá-la. Arrastá-la. Aprofundá-la, e arrastá-la mais. Só consigo imaginar. Descobri como é cortar papelão com um estilete, e com canetinha vermelha minha imaginação voou até um filme de suspense. Desses que eu tremo só de ouvir a música do suspense, e grito junto com a vítima - ela agora morta e eu aqui, com medo e com as mãos tampando os olhos: não quero ver. Mas agora eu me imagino no lugar do assassino, cortando uma vítima de papelão. Pode ser o meu rosto, o meu corpo, um boneco de palitos, um desenho surrealista, ou com cortes retos, algo de cubista. E de um papelão grande eu me cortei, porque a vítima sou eu, desenhada com canetinhas esferográficas. E talvez depois disso eu queira experimentar em mim, mas é como nos filmes, a ideia de cortar a pele me deixa nervosa; nem cogito. O que é péssimo, porque eu adoraria, porque não sou uma pessoa violenta.

Vida de cinzas

Eu sei que a culpa é toda minha. Se eu sofro é por mim, se eu me perco é por mim, se eu esqueço é por mim, se eu fraquejo, unicamente por mim. Não há desculpas que possam deduzir ou solucionar ou apenas silenciar o problema. Por mim, eu sinceramente não sei o que faria. Por você, é uma pena, mas você não se inclui nessa história. Então, por mim, eu poderia estar grogue por agora ou por ora, poderia estar faminta, de ideias e de fome, poderia esfriar meu corpo no externo e me manter quente de ira internamente. Não quero congelar ou queimar, mas ah, como eu me queimo de ira, queimo palavras, queimo olhares, queimo cigarros e de mim sai fumaça, pela cabeça, pela boca, pelo ouvido, porque eu quero silêncio, silêncio dentro de mim, então eu queimo, queimo tudo o que tem dentro, e só sai fumaça e cinzas, que estão espalhadas pela casa, pelas roupas, e deixaram minhas roupas cinzas, ou até pretas, e daí são as únicas cores que visto, porque até minhas roupas se queimaram ao entrarem em contato com a minha pele, e dela surgiu uma caveira, porque meu rosto também se queimou, então tenho uma caveira em minha pele, porque a carne já sofreu, agora restam aos ossos, já frios.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mia Couto

Solidão

Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo